Apresentação
Com texto e direção de Renata Mizrahi. Observadora perspicaz do cotidiano, a autora — vencedora do Prêmio Shell em 2015, com a peça "Galápagos" — ficou impressionada com um quiprocó que tomou conta da Praça Nossa Sra. da Paz, em Ipanema, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela viu uma babá ser acusada de envenenar parte do gramado, com o suposto intuito de matar cachorros. O incidente, que colocou em primeiro plano não só a rixa entre mães de cães e de crianças, mas a questão da coexistência e os contrastes sociais, inspirou Renata a dar forma ao texto CORINGA. A obra, que dialoga com o universo de um cotidiano imerso em questões sociais, trouxe justamente o que as atrizes Bianca Sacks e Bruna Macaciel estavam buscando para seu novo trabalho.
Contemplado pelo edital Retomada Cultural 2 da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, Coringa estreou em janeiro de 2023 com temporada no Teatro Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim. Em março Coringa realizou apresentações no Teatro Municipal de Teresópolis e tem apresentações previstas no Teatro Odylo Costa Filho, na UERJ. O texto de Renata recebeu a menção honrosa no Concurso Nacional de Dramaturgia Carlos Carvalho 2022, Porto Alegre, RS.
Em CORINGA Renata Mizrahi, propõe, com humor, um olhar crítico sobre contrastes sociais. A proposta é, a partir do encontro de duas mulheres num apartamento, gerar debate sobre desigualdade social e privilégio e como eles, constantemente, levam à cegueira para um enorme abismo social que vivemos enquanto sociedade. O humor historicamente é uma forma artística eficaz para a crítica, e a encenação explora este recurso. Renata observa o macro pelo micro colocando densidade em situações aparentemente banais e cômicas, mas propulsoras de reflexões.
Para que o projeto se cumpra de forma mais eficaz, e que através do espetáculo, se possa ampliar a discussão, propomos um dia de bate papo, com uma personalidade que tenha envolvimento prático na luta por direitos humanos e diminuição das desigualdades sociais, junto à grupo de estudantes de teatro de locais públicos. No caso do Rio de Janeiro, nossa debatedora foi a Deputada estadual Renata Souza - https://youtu.be/5-zIRDl1Mmk e alunos do projeto Estilhaça.
A encenação criou um espetáculo leve, de fácil itinerância, duas atrizes, tapetes, cadeiras, objetos. Tudo existe para a funcionalidade da cena e texto, sem perder a poesia e beleza da confluência da criação artística que une a música original de Felipe Dias o desenho de luz de Rommel Equer e Maurício Fuziyama e cenário e figurinos de Guilherme Reis.
A pesquisadora de teatro Tânia Brandão, em seu blog define CORINGA como um “experimento Cênico” de Renata Mizrahi que “com aguda ironia e um requintado cálculo simbólico, fala da intransigência e da recusa em entender o outro, conversar como forma bela da arte de viver”.
Renata Souza apontou para diversos links que a peça cria, entre eles a importância de trazer à tona o debate sobre narrativas, num momento em que vivemos a proliferação de fake news. Este questionamento: a quem pertence a verdade? Todo mundo tem a sua e ninguém quer renunciar a ela, é proposto no espetáculo, onde aprofundamos a reflexão para: com quem está a verdade numa sociedade marcada pela desigualdade? Num momento decisivo no final do espetáculo onde uma bala perdida parte do apartamento onde estão as personagens, a narrativa que fica é: “e o tiro? E o vidro quebrado da janela? Foi a bala perdida que veio da comunidade, esses tempos são um horror!” E é na repetição inúmeras vezes dessa mentira, que a peça é finalizada.
Sinopse
As atrizes dão vida às personagens Lia (Bianca Sacks) e Mara (Bruna Macaciel), duas estranhas que se encontram em um apartamento em Ipanema para discutir quem deu veneno de rato a Coringa, o cachorro de Mara que quase morreu. Enquanto Mara tem certeza de que foi a babá do filho de Lia a culpada, e deseja uma punição, Lia, por sua vez, culpa Mara por permitir que seu cachorro invada a área das crianças em vez de ficar restrito ao Carandiru, nome do espaço destinado aos cães. A história tem um desfecho trágico e surpreendente que subverte um imaginário social da classe média. É da janela daquele apartamento que vai partir a “bala perdida”.
Proposta de encenação
Para dar forma ao espetáculo, Renata optou por uma concepção que vai na direção do teatro surrealista, dando luz à própria situação absurda que o texto apresenta. A encenação tem o objetivo de revelar a hipocrisia das personagens, sem medo de explorar mudanças bruscas de jogo de cena a cada degrau da peça.
A cena se passa toda em um apartamento de onde uma das personagens quer constantemente sair, mas não consegue. Para a ambientação deste apartamento, os estudos de luz e cenário caminharam juntos. Uma janela iluminada de led, por onde as personagens avistam e contracenam com a comunidade próxima e luminárias criam uma sensação aconchegante onde o público pode se sentir por ora dentro, e por ora distanciado da cena. A trilha sonora original de Felipe Dias, contribui tanto para a exploração das “mudanças bruscas” da cena, quanto para esta ambientação mais intimista do apartamento. A trilha une elementos de tango e bossa nova com o eletrônico, dando a ideia desse recorte distópico que a peça conduz.
Ficha Técnica
Texto e direção: Renata Mizrahi
Direção de Produção: Fernanda Avellar
Elenco: Bianca Sacks e Bruna Macaciel
Assistência de Direção: Gizelly de Paula
Cenário e Figurino: Guilherme Reis
Trilha Sonora Original: Felipe Dias
Desenho de Luz: Rommel Equer
Fotografia e Vídeo: Dalton Valério
Arte gráfica: Letícia Rumjanek
Realização: Trestada Produções
Idealização: Cia Due
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